Autismo: "diagnóstico não muda quem somos", ressalva fonoaudiólogo

  • 02/04/2025

Mais pesquisas e avanços na ciência têm mostrado como a sociedade tem progredido na identificação de pessoas no Espectro Autista

Thiago Coutinho
Da redação

Só no Brasil são 2 milhões de pessoas diagnosticas com Espectro Autista / Foto: Caleb Woods por Unsplash

A ONU instituiu em 2 de abril de 2008 o Dia Mundial de Conscientização do Autismo. Numa definição sucinta, o autismo é uma síndrome que afeta vários aspectos da comunicação, o que acaba influenciando no comportamento do indivíduo. Dados do Center of Deseases Control and Prevention (CDC), órgão que é ligado ao governo estadunidense, mostram que, atualmente, 1 a cada 110 pessoas está no Transtorno do Espectro Autista (TEA). Estima-se que haja 2 milhões de brasileiros com TEA — somente no Estado de São Paulo são mais de 300 mil ocorrências.

“O TEA é uma condição do neurodesenvolvimento caracterizada por diferenças na comunicação, interação social e padrões de comportamento. Esta é uma definição geral, porém, gosto de dizer que o autismo é um modo singular de vivenciar a realidade, influenciando como a pessoa percebe, sente e experimenta o mundo”, explica o fonoaudiólogo Rômulo Porto, pós-graduado em Estimulação Precoce de Fala, Neuropsicologia e Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA).

De acordo com Porto, essas diferenças se manifestam de diversas formas, incluindo dificuldades na reciprocidade social, hipersensibilidade sensorial e interesses restritos ou altamente focados, fenômeno conhecido como hiperfoco. 

Mais diagnósticos

Em 2023, uma pesquisa divulgada pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos revelou que 1 a cada 36 crianças estadunidenses com menos de 8 anos de idade estão no espectro autista. Esses dados, no entanto, não significam que haja mais pessoas no espectro, como pode se presumir num primeiro momento. “Mas sim que a sociedade e a ciência estão cada vez mais preparadas para identificá-las”, afirma Porto.

Como os diagnósticos estão mais precisos e a comunidade científica arregimentou mais conhecimento em torno do TEA, essas pessoas que antes eram muitas vezes despercebidas passaram a ser notadas. “Isso inclui, por exemplo, meninas, adultos e indivíduos com habilidades verbais preservadas, cujas dificuldades antes poderiam ser erroneamente atribuídas a outros fatores. Essa maior conscientização é um reflexo positivo do avanço da sociedade, lugares como esse e oportunidades como essa de falar sobre o autismo ajudam muito o entendimento da população, pois quanto mais cedo uma pessoa autista recebe apoio, maiores são suas chances de alcançar qualidade de vida e desenvolvimento pleno”, pondera o fonoaudiólogo.

O jornalista e professor universitário Marco Bonito / Foto: Arquivo Pessoal

Diagnóstico tardio

O professor universitário e jornalista Marco Bonito descobriu ter Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) — que está intrinsicamente ligado ao TEA — já adulto, mais precisamente após um colapso que sofreu durante a pandemia. Naquele momento em que o mundo parou, Marco passou a desenvolver depressão e outros quadros mais sérios. Na terapia, descobriu indícios de alguns transtornos que o levaram a um psquiatra.

À época, e isso há poucos anos, Marco descobriu que os médicos não tinham muitas informações sobre TDAH em adultos. Aprovado em 2022 para uma bolsa pós-doutorado na Universidade de São Paulo (USP), Marco se inscreveu como voluntário para uma pesquisa sobre a incidência de TDAH em adultos. Foi aí que um diagnóstico mais específico para a doença surgiu. “Após pouco menos de um ano, em março de 2023, tive os primeiros diagnósticos que identificaram uma série de transtornos. Passei por exames clínicos amplos, exames psicotécnicos, ressonâncias e os resultados apresentaram TDAH, TOC [Transtorno Obsessivo-Compulsivo], transtorno sensorial, transtorno de ansiedade. Uma cartela de bingo quase completa só de transtorno”, brinca. Recentemente, em novembro passado, o professor e jornalista recebeu da junta médica a certeza do diagnóstico positivo para autismo.

Embora haja níveis de TEA — leve, moderado e severo — Marco ressalta que esta informação já não corresponde mais à realidade desses pacientes. Ainda prevalece o estereótipo de que autistas são pessoas que não conseguem interagir socialmente. “Essa é uma ideia dos anos 1980”, rebate Marco. “Hoje em dia, autistas interagem, têm bom desempenho social, mas têm todas as comorbidades de um autista, o que é o meu caso”.

O fonoaudiólogo  observa que o diagnóstico tardio é mais comum do que se imagina. Ele mesmo é um exemplo disso. “Fui diagnosticado aos 35 anos, depois que meu filho recebeu o diagnóstico aos três”, recorda. “Hoje, vemos um número crescente de adultos buscando avaliação, porque passaram a vida inteira tentando se encaixar sem saber exatamente por que se sentiam diferentes. O diagnóstico não muda quem somos, mas dá nome ao que sempre sentimos. Com ele, podemos buscar apoio adequado, compreender nossas necessidades e viver com mais autenticidade e qualidade de vida”, pondera.

Origem desconhecida

A medicina contemporânea ainda não tem uma resposta definitiva sobre como o TEA surge. “Mas a ciência avançou significativamente na compreensão dos fatores envolvidos”, esclarece Porto. “Pesquisas indicam que não há um único ‘gene do autismo’, mas sim uma interação de múltiplos genes que podem predispor a pessoa ao espectro. Além disso, fatores como idade parental avançada, complicações gestacionais e exposição a determinadas condições ambientais podem estar associados ao desenvolvimento do TEA”, reitera.

O foco da ciência hoje em dia, segundo Porto, não é a cura, mas sim criar condições de suporte para essas pessoas. “Proporcionar melhores estratégias de suporte, inclusão e qualidade de vida para pessoas autistas ao longo de toda a vida”.

Marco é um exemplo deste quadro. Ele não se sente limitado por ter sido diagnosticado com TEA. Tampouco isso diminuiu seu rendimento profissional ou limitou seu relacionamento social. “Ser autista não é e não deveria ser um problema. Até a classificação como ‘deficiência’ é equivocada. Creio que nem deveríamos usar a palavra ‘pessoa com deficiência’ para quem está no espectro autista. Tenho mais conexões e capacidade de gerá-las. Mas, as particularidades da pessoa autista incomodam, ainda mais quando associadas a outros transtornos. O autismo está no imaginário popular de algo problemático. As pessoas precisam se informar mais, buscar informações em jornais, revistas científicas e perder o preconceito. É um caminho árduo que, por uma questão de dignidade, preciso fazer”, finaliza.

A seguir, confira um quadro com algumas características comuns que são apresentadas por crianças que podem estar no espectro autista. “Mas é importante lembrar que cada criança tem seu próprio ritmo de desenvolvimento. Só porque apresenta um desses sinais não quer dizer, necessariamente, que seja autista. O ideal é observar com atenção e, se houver alguma dúvida, procurar um profissional qualificado que entenda sobre o autismo. Quanto mais cedo um diagnóstico for feito, mais rápido podemos oferecer as estratégias certas para ajudar a criança a se desenvolver da melhor forma possível”, aconselha Porto.

O post Autismo: "diagnóstico não muda quem somos", ressalva fonoaudiólogo apareceu primeiro em Notícias.

FONTE: https://noticias.cancaonova.com/mundo/autismo-diagnostico-nao-muda-quem-somos-ressalva-fonoaudiologo/


#Compartilhe

Aplicativos


Locutor no Ar

Peça Sua Música

Top 5

top1
1. Terra Seca

Thiago Brando

top2
2. Meu Deus Eu Creio

Padre Reginaldo Manzotti

top3
3. Sobre Jesus

Izabel Carvalho

top4
4. Utopia

Thiago Brado - Utopia

top5
5. Tomé

Davidson Silva

Anunciantes